Tem um lugar que eu ocupo com frequência nos meus atendimentos: o lugar de fazer alguém enxergar o que ela mesma não consegue ver sozinha.
Sou nutricionista, acompanho majoritariamente mulheres, e sou mulher também. Isso significa que boa parte das inseguranças, das autocobranças excessivas e das dúvidas que chegam até mim no consultório, eu também já senti ou ainda sinto. “Será que estou fazendo certo?” não é uma pergunta exclusiva de quem está do outro lado da tela.
E é justamente por viver esse lugar de dentro que reparo um padrão que se repete quase sempre: somos muito mais duras com a gente mesma do que seríamos com uma amiga. Se fosse ela contando sobre uma dificuldade da semana, sobre um resultado que demorou a aparecer, sobre um deslize num fim de semana, o acolhimento seria imediato e a valorização também. Mas quando o assunto somos nós, tudo parece insuficiente, o progresso não conta e, só o que falta aparece.
Por que isso trava o processo
Ser excessivamente rígida consigo mesma não é sinônimo de disciplina, porque, na prática, é um dos maiores fatores de desistência. Quando o critério de sucesso é a perfeição, qualquer resultado que não seja perfeito é lido como fracasso. E ninguém se mantém motivado para continuar algo que é interpretado, semana após semana, como fracasso.
Isso vale para o emagrecimento, mas vale para qualquer construção de longo prazo: relação com o corpo, carreira, maternidade, qualquer processo que dependa de continuidade. A régua da suficiência, quando é rígida demais, não sustenta ninguém por muito tempo.
O papel de estar acompanhada
Recentemente, vivi um momento bonito nos atendimentos: pacientes trouxeram, com as próprias palavras, um pouco da trajetória de cada uma, ressaltando o que mudou, o que aprenderam, o que a balança nunca mostrou sozinha. E, de certa forma, a troca se inverteu: foram elas que me mostraram o valor do que construímos juntas.
Isso resume bem o papel de um acompanhamento nutricional bem feito: não é só ajustar prato, caloria ou macronutriente. É também ocupar esse lugar de intermediação, de apontar o que os pequenos avanços significam, de valorizar o detalhe que passaria despercebido, de lembrar que resultado não é só número em balança.
Quando alguém caminha nesse processo sozinha, o julgamento tende a ser mais severo, o olhar mais estreito, e o desânimo chega mais rápido diante de qualquer oscilação. Quando existe alguém acompanhando de perto e reconhecendo o esforço, ajustando a rota sem cobrança, celebrando o que está funcionando, a régua muda. E é essa régua mais justa que sustenta a constância a longo prazo.
O que fica
Se tem um aprendizado nesse movimento é que ninguém deveria caminhar em direção a nenhum objetivo de saúde carregando o peso extra de nunca se achar suficiente. O processo já é desafiador o bastante sem essa cobrança adicional.
Ter alguém do lado par que enxergue o que a rigidez interna não deixa a gente ver muda completamente a forma como o caminho é percorrido. E talvez esse seja o maior diferencial de um acompanhamento de verdade: não é só sobre o que muda no corpo, é sobre aprender, aos poucos, a se olhar com o mesmo cuidado que se ofereceria a alguém que se ama.
