Quando pensamos em acompanhamento nutricional, é comum imaginarmos que o resultado depende principalmente do plano alimentar, da organização das refeições e da capacidade de seguir aquilo que foi proposto.
Mas existe um elemento menos comentado e extremamente importante nessa equação: a relação de confiança entre paciente e nutricionista.
E talvez você nunca tenha parado para pensar no quanto isso pode interferir nos seus resultados.
O que acontece quando você sente que precisa “prestar contas”?
Durante um acompanhamento, é natural que o nutricionista faça perguntas sobre alimentação, rotina, fome, dificuldades e escolhas. Afinal, essas informações fazem parte do processo e ajudam a entender o que está funcionando e o que precisa ser ajustado.
O problema começa quando essa relação passa a ser percebida como uma espécie de fiscalização:
“Será que ela vai brigar comigo?”
“Será que vai achar que eu não estou me esforçando?”
“Melhor nem contar.”
E, aos poucos, a pessoa começa a esconder determinadas situações.
Não porque queira mentir, mas porque está tentando evitar a sensação de fracasso ou de julgamento e isso pode comprometer justamente uma das ferramentas mais importantes do acompanhamento: a informação real sobre o que está acontecendo.
Um cachorro-quente pode ensinar muito sobre isso
Recentemente, durante um acompanhamento, um paciente compartilhou comigo que havia tido uma semana difícil.
Em um dos dias, depois de um momento mais intenso no trabalho, acabou comendo um cachorro-quente. Em outro momento, comeu um salgadinho durante uma comemoração.
Ele poderia ter olhado para aquilo e pensado:
“Estraguei minha semana.”
Mas não foi isso que aconteceu.
Nós conversamos sobre o contexto, entendemos o que havia acontecido e seguimos, justamente porque comer um cachorro-quente em uma noite difícil não apaga os outros dias de escolhas equilibradas.
E, principalmente, não precisamos transformar um episódio pontual em uma sentença sobre todo o processo.
O problema não é contar que saiu do planejado. É não conseguir contar.
Imagine se, ao receber essa mensagem, a resposta fosse uma bronca:
“Você não pode fazer isso.”
“Precisa ter mais disciplina.”
“Você está sabotando seu emagrecimento.”
Talvez, na próxima vez, essa pessoa simplesmente não contasse.
E se isso acontecesse novamente? E novamente?
Eu, como nutricionista, começaria a tomar decisões com base em uma realidade incompleta.
Talvez aquela pessoa estivesse enfrentando dificuldades emocionais, uma rotina de trabalho muito pesada, fome aumentada, falta de organização ou alguma outra questão que precisasse ser investigada.
Mas eu não teria acesso a essa informação.
E sem acesso ao que realmente está acontecendo, como ajustar uma estratégia de forma adequada?
Acolher não significa passar a mão na cabeça
Existe uma diferença importante entre acolhimento e permissividade:
Acolher não significa dizer que qualquer comportamento está tudo bem ou que nenhuma mudança precisa acontecer. Significa conseguir olhar para aquela situação sem transformar o erro em identidade. É poder dizer:
“Isso aconteceu. Vamos entender por quê.”
“Isso está acontecendo com frequência ou foi pontual?”
“O que estava acontecendo naquele dia?”
“Existe alguma coisa na sua estratégia que precisa ser ajustada?”
É assim que o acompanhamento deixa de ser uma cobrança e passa a ser uma construção.
O paciente precisa se sentir seguro para contar a verdade
Um acompanhamento nutricional precisa ter espaço para a vida real porque pessoas têm dias difíceis.
Existem aniversários, reuniões, viagens, cansaço, imprevistos, finais de semana, vontades, emoções e momentos em que a comida também participa da nossa vida social e afetiva.
Isso não significa que tudo precisa ser justificado ou que não devemos buscar mudanças, significa que o caminho para o emagrecimento não pode depender da criação de uma versão perfeita da sua rotina.
Quanto mais verdadeira for a informação compartilhada durante o acompanhamento, maiores são as possibilidades de compreender o comportamento e construir estratégias que realmente façam sentido para aquela pessoa.
Você não precisa esconder para conseguir emagrecer
Talvez essa seja uma das coisas mais importantes que eu gostaria que uma paciente entendesse:
você não precisa chegar ao acompanhamento apenas com boas notícias.
Pode me contar que exagerou, que não conseguiu treinar, que teve muita fome, que passou alguns dias desorganizada, que comeu algo que não estava planejado.
Essas informações não servem para definir se você foi “boa” ou “ruim”, servem para que eu consiga entender melhor a sua realidade e, junto com você, decidir o próximo passo.
Porque o objetivo do acompanhamento não é construir uma relação em que você tenha medo de me contar o que aconteceu, é construir uma relação em que você consiga contar justamente para que a gente possa cuidar melhor do que vem pela frente.
E, no fim, talvez seja isso que torne o emagrecimento mais sustentável: não precisar ser perfeita para continuar.
